A CIA e o capacho que afunda

A tragédia de hoje não é fruto do acaso. 

13/07/2021
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O ex-ministro Celso Amorim já observou não ser usual um chefe da CIA conspirar  à luz do dia: “A CIA, quando aparece, não age” - ou (acrescento), quando age, não aparece, pois a discrição é arte exigida do conspirador. É da natureza de seu macabro papel. Como cavalo não desce escada e jabuti não trepa em árvore, abre-se um  leque de conjecturas sobre o que teria levado o Sr. William Burns, o número 1 da principal agência de espionagem, assassinatos e sabotagem dos EUA, a abandonar seu gabinete na Virgínia para vir a Brasília, via Bogotá, onde encontrou em crise seu principal aliado na América do Sul.

 

Para dar ordens, bastava um telefonema. Com a exceção, provável, do início do mandarinato do Marechal Castello Branco, os EUA jamais tiveram no Brasil um governo tão pusilânime e vassalo de seus interesses como o do capitão Bolsonaro. O presidente Joe Biden adora sua política externa subalterna tanto quanto Donald Trump.

 

Já longe vão os tempos da política “ativa e altiva” de Lula e Amorim. Para tomar o pulso do governo, de pernas bambas, certamente não foi que o Sr. Burns se abalançou até o planalto central:  a CIA mantém agentes em todos os cantos e em todos os cantos eles são recebidos por solícitos informantes. Em Brasília, a embaixada dos EUA é normalmente muito bem abastecida pelos próprios serviços de informação brasileiros, e por  uma infinidade de súditos ansiosos por oferecer seus préstimos, muitos a preços módicos, a maioria, porém, por pura e incurável subserviência.

 

A velha alma de vira-lata de que nos falava Nelson Rodrigues. Há, entre os dois países, e não é fenômeno de nossos dias, uma teia de relações que percorre os diversos escaninhos da República, transita pelas relações íntimas entre nossos fardados e os fardados de lá, e de desvão em desvão passa por nossos adidos, consultores, estagiários e mesmo diplomatas. O lamentável Ernesto Araújo não é ave rara. Renato Archer conta em suas memórias o fato escabroso de um diplomata brasileiro, servindo no gabinete do presidente da República, em telefonema no próprio Palácio do Catete, passar informações secretas para o Departamento de Estado dos EUA, e sonegar documentos solicitados pelo presidente Juscelino Kubitscheck. Isto em maio de 1956. 

 

Já em julho de 1954 revelara aos patrões nos EUA que Getúlio Vargas estava tentando importar centrífugas da Alemanha. Vinte e quatro horas depois essas máquinas são apreendidas em Berlim pelas forças americanas de ocupação. Que faziam ontem e fazem hoje nos EUA os adidos da Polícia Federal brasileira?  E nossos adidos militares? Qual a finalidade do intercâmbio de agentes e dados dos órgãos de espionagem e informação? Vimos, há pouco, as relações espúrias entre procuradores  e juiz da Lava Jato (a obscena república de Curitiba) a serviço do Departamento de Justiça dos EUA, jogando contra os interesses da Petrobras e de construtoras brasileiras. Quando os canais “normais” mostram-se ineficientes, a CIA (ou o Pentágono, ou o FBI) lança mão de intercepção das comunicações: assim o telefone da então presidente Dilma Rousseff, no governo do democrata Barack Obama, foi grampeado e os computadores da petrolífera invadidos. E ficou por isso mesmo e assim vai ficar. Ou seja, o agente norte-americano não veio ao Brasil nem para assuntar o terreno nem muito menos para colher a opinião do governo satélite sobre seus próximos passos. 

 

Que veio fazer, então? Faz muito bem o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) em cobrar explicações, por meio de requerimentos de informações, a respeito da opaca visita, além de propor, juntamente  com David Miranda (PSOL-RJ) que a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados convoque os ministros e generais Augusto Heleno (Segurança Institucional) e Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil), para que prestem os devidos esclarecimentos sobre o convescote - após o qual Jair Bolsonaro expeliu preocupações relativas a nossos vizinhos sul-americanos, em vídeo divulgado por apoiadores.

 

 

Antes é preciso lembrar, principalmente aos que comemoraram além das justas medidas a eleição de Joe Biden (cuja importância reside no fato de haver derrotado Trump), que os EUA em política externa não têm seja escrúpulos, seja amigos. Têm interesses, que os tolos das suas periferias abraçam, na vã suposição de estarem participando de uma batalha ideológica. O que separa os EUA da China, hoje, senão  uma disputa de mercados que se desdobra em jogo de interesses geopolíticos que não nos dizem respeito?  

 

Aliás, é bom lembrar que a aproximação com a China (em plena Guerra Fria)  foi levada a cabo pelo presidente Richard Nixon, republicano, e operada por Henry Kissinger, o articulador do golpe que defenestrou o governo de Salvador Allende, após liquidar  a promissora democracia chilena, e instaurou uma ditadura corrupta e assassina, admirada por tecnocratas brasileiros e pelo ainda presidente. A diferença, em política externa, entre o republicano Trump e o democrata Biden é de método. O atual presidente é um político de escola, seu antecessor um arrivista, ademais de personagem grotesca - características, aliás, que mais encantaram o capitão Bolsonaro. No fundamental o presidente e o ex-presidente estão a serviço dos EUA “profundo”   que têm no Pentágono  seu principal guardião, seja qual for o partido ocupante da Casa Branca.

 

A propósito das ilusões brasileiras sobre os democratas é de lembrar que a conspiração estadunidense contra o governo João Goulart teve início no governo de John Kennedy (responsável pela fracassada invasão de Cuba, pela CIA) e levada a cabo pelo  sucessor, também democrata,  vice Lindon  Johnson, que instalou no Rio de Janeiro o Cel. Vernon  Walters como oficial de ligação entre a CIA e os generais golpistas brasileiros, com os quais mantinha relações estreitas desde a Segunda Guerra Mundial. O mesmo Johnson que iniciou a escalada militar no Vietnã.

 

Burns, o visitante sorrateiro, não deu declarações à imprensa, e sua embaixada manteve-se em silêncio, mas pela seleção dos interlocutores (os generais que ocupam o terceiro andar do palácio do Planalto e o general Ministro da Defesa, vê-se que não cuidava de flores. Uma pista das reuniões reservadas talvez esteja no vídeo gravado por Bolsonaro, voltando da casa de Todd Chapman. O capitão não se referiu ao conteúdo do encontro com o número 1 da CIA, mas mostrou-se muito preocupado com o quadro que via desenhar-se na América do Sul. Referiu-se especificamente à Argentina, à Venezuela, ao Chile e à Bolívia.

 

O incumbente lastimou a redemocratização do nosso vizinho andino, o retorno das forcas políticas ligadas ao ex-presidente Evo Morales, e revelou-se preocupadíssimo com o precedente da prisão da ex-presidente Jeanine Áñez, respondendo a processo, acusada de crime político (conspiração). Os fantasmas do fim de seu governo começam a atormentá-lo. Aliás, os bolivianos logram o que não nos foi dado levar a cabo por consequência da conciliação de 1985.

 

A tragédia de hoje não é fruto do acaso. 

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