Na antessala do golpe

Os fardados estão comprometidos até o gorgomilo com a implantação, sustentação e sobrevivência do governo lesa-pátria do capitão, que consolida o projeto de 2016, porque é sua razão e consequência.

15/07/2021
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Os indicadores da maquinação golpista são sérios e não devem ser menosprezados pois contam, em sua base, com o histórico desapreço das fileiras armadas brasileiras aos princípios da democracia. E são delas  os tanques. Nessa militância golpista, aliás, não estão sós, pois sempre contaram com a companhia (senão a precedência condicionante) da casa-grande: o 1% de brancos milionários que usufrui do país, desde a colônia, imutável no poder, seja no império seja  na república, no parlamentarismo copiado dos ingleses e no presidencialismo mal traduzido da Constituição dos EUA; nos períodos democráticos e nas ditaduras, e mesmo nos poucos governos de índole social-democrata.

 

Desafeita aos destinos  do país e do povo, seus interesses remontam ao agrarismo e ao capital estrangeiro,  ditadores dos  rumos de nossa história. Minoria poderosíssima, é sócia sem direito a voto das multinacionais; produto colonial,  está sempre pronta a mobilizar recursos econômicos e ideológicos -estes principalmente operados pelos meios de comunicação-, quando se trata de  impedir o progresso social.

 

A casa-grande financiou a vituperina campanha contra o governo constitucional de Vargas, condenado pela opção nacionalista e desenvolvimentista, de que são pontos de relevância a consolidação da Cia. Siderúrgica Nacional, a Petrobras, a Eletrobrás, o BNDES, a política nuclear, sabotada pelo Marechal Juarez do Nascimento Fernandes Távora quando chefe da casa militar do governo fantoche de Café Filho (sugiro a leitura de Renato Archer-Depoimento, organizado por Álvaro Rocha Filho e João Carlos Garcia, ed. Contraponto) e a montagem e fortalecimento do CNPq, a que se deve o desenvolvimento da pesquisa científica entre nós. Idêntica conjunção de objetivos antinacionais financiou a campanha contra as “reformas de base”, proposta de desenvolvimento capitalista que simplesmente colocava nas planilhas dos economistas o item povo, povo-massa, expungido pelos monetaristas e pelos neoliberais de hoje. Por defender a reforma agrária, programa  de José Bonifácio no nascimento do primeiro império!, João Goulart foi deposto e exilado, pelos militares.

 

Os generais podem explicar por que, na segunda década do século XXI, são contra a reforma agrária, contra os direitos trabalhistas e não se incomodam em comandar (porque o governo é deles) um país que ostenta a mais iníqua concentração  de renda do planeta?

 

Os fardados –como a plutocracia paulista (os cafeicultores e o pessoal da Faria Lima e adjacências, passando pela FIESP)– estão comprometidos até o gorgomilo com a implantação, sustentação e sobrevivência do governo lesa-pátria do capitão, que consolida o projeto de 2016, porque é sua razão e consequência. A campanha contra o governo Dilma Rousseff, os rios de dinheiro que correram no submundo político que assegurou a eleição de Eduardo Cunha à presidência da Câmara (uma das colunas da arquitetura golpista de 2016), a conspiração do vice-presidente perjuro, a campanha no congresso com vistas à votação do impeachment, a preparação do pleito de 2018, a intervenção do general ministro da defesa acuando o STF para impor o  impedimento da candidatura Lula (então liderando as pesquisas de intenção de voto), a transformação dos quartéis em comitês eleitorais do capitão, a tomada do poder civil por cerca de 7 mil militares (como o general Eduardo Pazuello, da ativa, contra quem pesa ação da Procuradoria da República do DF que o acusa de administração “gravemente ineficiente” no ministério da Saúde), as seguidas e ameaçadoras declarações de comandantes militares, e até do presidente do Superior Tribunal Militar, advertências sobre cordas que não poderiam ser esticadas sob pena de grandes (más) consequências... tudo isso consiste em peças de uma engenharia harmônica: um projeto de poder, doravante ao arrepio da soberania popular.

 

Conquistado como sabido, para o que tão importante foram as ilegalidades e irregularidades da “república de Curitiba”, orientadas de perto pelo Departamento de Justiça dos EUA, a tarefa de agora é manter o poder do partido militar. Daí, por contingência, a sustentação, contra a vontade nacional que se manifesta nas ruas, de um governo antinacional e profundamente ímprobo, um valhacouto de corrupção sistêmica, cujo núcleo é a própria presidência da república, ao que tudo indica  (e lamenta-se) contaminando  de forma a mais perigosa as forças armadas, que até há pouco se apavonavam como campeãs da moralidade pública. 

 

Pelo lido e visto, enganou-se o presidente da CPI do Senado; antes de se envergonharem com os desmandos de seus camaradas acusados de corrupção, os generais  com eles se solidarizam. É o que se pode concluir da insólita, irresponsável e inaceitável nota do general ministro da defesa referendada pelos generais comandantes das três forças. Sem condições de recusar a evidência da participação de militares em falcatruas, e ao invés de se disporem à apuração das irregularidades, os chefes militares agridem o presidente da CPI do Senado, ameaçam o poder legislativo e reforçam os temores dos gatos escaldados que já viram e sofreram muitos golpes de Estado. A renovada ameaça dos comandantes é  gesto que encerra profunda covardia: os  valentes engalanados são profissionais da violência, adestrados (com recursos públicos) para destruir e matar, armados  de tanques, metralhadoras e bombas; os ameaçados são o poder civil desarmado e, em última instância, o povo brasileiro, o núcleo da “pátria”, ente abstrato a cuja defesa os fardados dizem dedicar a morte.

 

Nascida de um golpe de Estado, a república brasileira é um triste experimento de golpes e ditaduras militares, que sempre precisam ser lembrados para jamais serem esquecidos, ou, pelo menos, para que tenhamos sempre as barbas de molho quando a média da oficialidade superior se imiscui na vida político-partidária. No vestibular da república os dois primeiros governos foram militares e foram duas ditaduras, a de Deodoro da Fonseca e a de Floriano Peixoto. A chamada velha república consumiu uma série incontável de irrupções, insurreições e conturbações  militares, passando pela vergonha do massacre de Canudos, a primeira “guerra” republicana, por sinal desferida contra camponeses, brasileiros famélicos, sem salário e sem terra, explorados pelo latifúndio.

 

Durante 30 anos, o poder militar aceitou o papel de servidor do atraso, de sustentação do latifúndio anti-industrialista e da plutocracia paulista, mantenedores de uma “democracia” fundada na fraude eleitoral a mais desabrida. Derrotado o ancien régime com a revolução dos governadores, em 1930, o país viveria sob ditadura militar até 1934, quando recupera a democracia representativa, logo desmontada pelo golpe de 1937 (comandado pelos generais Góes Monteiro e Eurico Gaspar Dutra), que se estende até 1945, quando os mesmos generais de 1937 dão termo ao Estado Novo, porque o ditador que sustentavam ensaiava um discurso nacionalista com laivos socais. Fala-se muito em nossa participação na Segunda Guerra Mundial, mas pouco se lembra que a entrada do Brasil no conflito, proposta por Getúlio Vargas em reunião do ministério, teve os votos contrários do ministro da Guerra (de novo Dutra) e do chefe do Estado maior (de novo Góes), o mais longevo caudilho fardado de nossa história (reinou de 1930 a 1945). De lá para cá, a memória é recente. A subserviência aos interesses geopolíticos dos EUA, a deposição de Vargas, a tentativa de impedir  a posse de Juscelino Kubitscheck,  eleito em 1955, a tentativa de impedir a posse de João Goulart e  o golpe do parlamentarismo em 1961 e, finalmente, o golpe de 1964, com a larga história de 21 anos de ditadura, horrendamente marcada por prisões, torturas e assassinatos, história que ainda não pôde ser convenientemente apurada e contada. Este é um dos tristes preços da conciliação de 1985, mediante a qual, numa transação de cima para baixo, com o povo na  plateia, o regime militar, decaído mas não derrotado, impunha as condições de sua aparente retirada da política.

 

Por muitos anos as forças militares foram identificadas como nacionalistas; perdem este título com o apoio à atual política externa de absoluta submissão aos interesses geopolíticos de uma potência estrangeira a cuja bandeira o presidente da república se perfila e rende continência. Perderam também a aura da competência, jogada ao mar por levarem a cabo o mais desastrado governo já registrado em nossa história. E, por fim, se veem atingidos pelo “mar de lama” (agora, sim, vale a expressão) que toma conta do governo, desde as “rachadinhas” do capitão e dos filhos parlamentares ao escândalo da compra de vacinas.

 

Se não podemos confiar nas forças armadas como instrumento de defesa da democracia, porque não podemos confiar nos seus atuais comandantes e no presidente da república ao qual obedecem, muito pouco devemos esperar dos demais poderes. O presidente do Senado é uma incógnita, personagem ainda sem papel,  e o presidente da Câmara é o chorume do centrão, em sua versão coronelista e truculenta. O presidente do STF, com suas idas e vindas, não revela firmeza, e jamais saberemos o que realmente foi tratado na reunião com Jair Bolsonaro, e o que pretende com o “pacto” dos  presidentes dos poderes. 

 

O que conta, portanto, é a continuidade e o aprofundamento da pressão popular, e a palavra de ordem que aglutina a população brasileira é o impeachment. É preciso salvar o país com a cassação do mandato do presidente. É preciso manter a mobilização popular para garantir o pleito de 2022, bem como a eleição e posse de um candidato, se possível de esquerda, que nos garanta a reconstrução do país.  

 

 

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