A integração do Brasil ao mercado mundial nos governos Lula e Dilma

07/02/2019
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Este artigo tem como objetivo destacar um aspecto dos governos Lula e Dilma que em geral não é mencionado quando é feito um balanço do desempenho da economia sob suas gestões: o fato de que o processo de “internacionalização” ou de “integração” de sua economia ao capitalismo internacional tenha se aprofundado sob seus comandos. Para isso, analisa-se a evolução de quatro indicadores: a participação da exportação no PIB, o investimento direto do Brasil no resto do mundo, o investimento estrangeiro direto (IED) e as fusões e aquisições.

 

O primeiro indicador é um indicador ‘clássico’ da abertura de uma economia ao resto do mundo, o que é, em geral, completado com a evolução das importações. Aqui nos restringiremos ao primeiro, dado a importância que é atribuída ao chamado “esgotamento do ciclo das commodities” à perda de apoio do governo Dilma junto a setores da classe dominante, o que teria dado início ao processo que culminou em seu impeachment. Como se pode ver no Gráfico 1, nos três primeiros anos do governo Lula, a participação das exportações no PIB se amplia, mantendo a trajetória dos anos anteriores (10,98%, em 2011; e 12,78%, em 2002) e, a partir de 2006, ano da reeleição de Lula começa a cair, chegando no seu nível mais baixo em 2010, portanto, ainda no governo Lula. Nos anos seguintes, o nível de participação das exportações tende, com oscilações, a subir, mas mantem-se em nível baixo vis à vis a importância adquirida no início do primeiro governo Lula.

 

Esses dados denotam o equívoco de se considerar que o “ciclo das commodities” tenha se encerrado em 2013, quando o mesmo ocorreu três anos antes, e a fragilidade de se atribuir ao fim do ciclo das commodities o início da queda do governo Dilma. Mais importante do que isso, se queremos dar ênfase somente a aspectos econômicos, foi ela ter promovido, simultaneamente, a queda da taxa de juros referencial (a Selic) e de ter aumentado a participação dos bancos públicos no mercado de crédito, a taxas menores do que do mercado. A taxa média de juros real praticada durante os governos Lula foi de 8,5% e, durante as gestões Dilma, 3,9%. Em 2013, 51% do crédito foi realizado pelos bancos públicos; em 2008, esse percentual era de apenas 34%.

 

Fonte: IBGE

 

No tocante ao investimento estrangeiro direto (IDE), em outra oportunidade já analisamos como o volume de entrada no país esteve associado o processo de privatização iniciada por Collor, mas largamente realizado por Fernando Henrique Cardoso (FHC). De fato, a venda do patrimônio público pode ser dividida em dois grandes períodos (o que não significa que privatizações não tenham ocorrido depois, mas em outro ritmo): 1990 – 1994; 1995 – 2002. No primeiro, que compreende os governos Collor e Itamar, foram privatizadas 33 empresas, com destaque para o setor siderúrgico (64%) e petroquímico (22%), resultando em USD 11.874 milhões (produto da receita da venda e da dívida transferida). No segundo, passaram para o setor privado 35 empresas, entre as quais a Companhia Vale do Rio Doce1, resultando em USD 93.424 milhões. Até 1994, a presença do investidor estrangeiro na privatização não superou 5% do total da receita derivada da venda das empresas. No segundo período, no entanto, essa participação subiu para 53%. Essa maior presença do capital estrangeiro no processo de privatização manifestou-se no aumento do fluxo do IED na conta capital e financeira do balanço de pagamentos (Marques e Nakatani, 2013).

 

Mas o interessante é verificar que a entrada de capital estrangeiro no país, na forma de IED líquido, isto é, entrada menos saída de investimento estrangeiro direto, não se esgotou quando o ritmo da privatização amainou. Como se pode ver no Gráfico 2, depois de um arrefecimento no início do primeiro governo Lula, começa se expressar um aumento tendencial do fluxo, embora registre queda em alguns anos. Entre esses, destaca-se 2009, ano que a crise que teve o epicentro nos Estados Unidos se abateu sobre o Brasil.

 

Fonte: Banco Central do Brasil. Elaboração própria.

 

O afluxo positivo de entrada de capitais foi em grande parte resultado da expansão monetária realizada pelo FED para fazer frene à crise. Está foi redirecionada para outras economias na forma de investimento estrangeiro direto, entre as quais o Brasil. Parte desses recursos é meramente especulativo, que se aproveitam do diferencial de juros entre o Brasil e os Estados Unidos e da taxa de câmbio. Outra parte, no entanto, está lastreando atividades de fusões e aquisições, de modo que o resultado é o aumento do grau de concentração e de estrangeirização da economia brasileira (Gráfico 3). Fica para um próximo momento, verificar a natureza desse capital, particularmente o quanto tem origem em fundos de todos os tipos.

 

Fonte: KPMG, 2018

 

Conclui-se, dos dados, que a integração do país à economia mundial continuou a se aprofundar durante os governos Lula e Dilma, implicando maior presença do capital estrangeiro nas atividades econômicas e aumentando o grau de concentração do capital das empresas. Isso ocorreu mesmo durante o período de maior instabilidade política no país.

 

Nota: Este artículo forma parte del boletín número 3 del Grupo de Trabajo “Integración y Unidad Latinoamericana” del Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO).

 

- Rosa Maria Marques: Pontificia Universidad Catolica – São Paulo (Brasil).

 

Referências:

 

KPMG (2018). Fusões e aquisições, 2018, 1º trimestre. Disponível em https://home.kpmg.com/br/pt/home/insights/2018/06/fusoes-e-aquisicoes-1o-trimestre-de-2018.html. Acesso em 20/12/2018.

 

Marques, Rosa Maria e NAKATANI, Paulo (2013). El capital fictício y los capitales extranjeros en Brasil. En Estay, J. ; Morales, J. y Marques, R. (Organizadores). Desarrollo y crisis en el capitalismo. BUAP. Puebla, México.

 

1 A Companhia Vale do Rio Doce, uma das maiores produtoras e exportadoras de minério de ferro do mundo, foi privatizada em maio de 1997.

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